as almas, os pássaros

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sábado, 28 de fevereiro de 2009


Um mar assim
de beber, vida
após vida
sem princípio nem fim
quando me quebra em maremoto
oxigena as células
da alma, fogo ignoto
quero lá saber a dor
se o espelho do céu
bojador
és tu

sábado, 24 de janeiro de 2009



Um filme de Luc Besson com música de Eric Serra. Um filme sensível e visualmente belo, que retrata a diferença e o isolamento que ela provoca, a amizade e a obsessão para além da vida.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Um dos seus fornecedores tinha-lhe deixado, nessa manhã, o pequeno calendário, em formato de cartão de crédito. O seu primeiro impulso fora deitá-lo fora, mal o fornecedor virara as costas. Mas, sem saber porquê, acabara por colocá-lo no bolso do casaco. Chegado a casa, um pequeno estúdio no último andar de um prédio debruçado sobre o mar, tirara o casaco e a data surgira-lhe diante dos olhos, a dançar, como uma visão. Vinte e oito de Abril de dois mil e oito. Retirou o calendário do bolso do casaco, enquanto descalçava os sapatos. Não o largou enquanto se dirigia ao pequeno bar, retirava um copo e o enchia de Jack Daniels. Duas pedras de gelo retiradas do congelador. O copo numa das mãos, o calendário na outra, dirigiu-se à varanda, que era o melhor que a casa tinha e abriu as janelas de par em par. O mar era todo ele marés vivas e as nuvens rolavam pelo céu a alta velocidade, como fardos prateados, brancos e cinzentos de algodão. Sentou-se na cadeira, bebeu meio copo e fitou de novo a data. Tinham-se passado quinze anos e Tomás não sabia como. O que é que interessa o que pode ou não acontecer? O tempo não perdoa. Após se ter ultrapassado o cume da montanha a que chamamos vida, para baixo é sempre a escorregar. É tão rápido, que mal temos tempo de respirar entre o cair dos anos. Este ano tinha ido às Caraíbas, mas só conseguira pensar no sonho de ambos, do qual ambos se tinham afastado, seguindo caminhos diferentes. Escrever, precisava de escrever, há anos que não escrevia. Continuava a precisar do mar. Aprendera a sobreviver sem quase tudo o que era importante, mas não sobreviveria sem o mar. Nada o prendia. Nem mulher, nem filhos, nenhum compromisso, sempre achara que esse tipo de responsabilidade não convinha à sua loucura. Mas a vida dera-lhe a volta. Começara por colocar uma pedra no caminho, depois agarrara-lhe um calcanhar. Quando dera por ele, já estava envasado.
Os neurologistas dizem hoje que o amor não passa de química cerebral. Uma cientista dizia outro dia num programa televisivo: “Não é suposto durar. Faz-nos sentir maravilhosamente bem. É uma maravilhosa descarga de hormonas, o objectivo é o acasalamento com a pessoa certa (os genes certos). Mais tarde, as hormonas mudam e surge apenas uma sensação calma de bem estar. É o que chamamos amor. Não passa de um truque…” Claro que a cientista era americana…
Se assim é, pensava Tomás, o olhar vagueando entre o mar e o calendário, o céu e as memórias, porque é que há amor sem bem estar? Amor que dura anos e anos e cujos momentos de bem-estar se tornam cada vez mais raros, mais fugidios… A última vez que estivera com ela não sentira nada, nenhum deslumbramento, nenhuma descarga hormonal. Apenas amargura, desilusão. No entanto, continuava a preferir estar ao lado dela do que ao lado de outra pessoa qualquer. Pertenciam um ao outro, percebia-o agora claramente, com uma precisão e nitidez de gume. Há quinze anos que viviam separados. Não havia estímulo hormonal. Não havia recompensas. Já não partilhavam nada. Tinham mudado tanto os dois que às vezes se interrogava se ainda sabia quem ela era. Mas que o amor existia ainda, não tinha nesse momento dúvida alguma. Bebeu o resto do whisky de um só trago e lembrou-se daquela cena do filme Le Grand Bleu: “O que é o amor?”, perguntou um amigo a outro. “Amor é aquilo que nos mantém juntos.” Love is what keeps us together. Dito por um siciliano, claro. Mantém-nos juntos, apesar de separados. Apesar da falta de estímulos, da falta de recompensas. Um amor destes nunca morre. Por vezes transforma-se. Por vezes, na impossibilidade de ser canalizado, pela ausência, para aquela mulher, estende-se para os outros e começa a crescer como um rio por esse mundo fora… abrangendo tudo e todos, mas nunca esquecendo onde está a sua nascente.
Afinal, neste mundo, sussurrara ela uma vez, a única coisa capaz de nos salvar é o amor. Não interessa que tipo de amor é, se é o de um pai pelo seu filho ou o de um homem por uma mulher, ou o amor por todas as coisas, o amor pela vida, o amor universal. Amar, amar, não importa o quê, não importa a quem.
Só o amor cura tudo, como água do mar.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Odeio gravatas. Ainda bem que não tenho que as usar. Olho para elas e vejo uma trela. Nem os meus cães usam trela. Considero a trela algo de humilhante, além de que eu própria não suporto nada enrolado à volta do pescoço. Olho para as gravatas e apetece-me puxá-las ou rasgá-las.

Odeio fardas, odeio fatos, odeio planos de negócios e orçamentos. Odeio analistas e economistas. Odeio planos de contingência. Odeio armas. Odeio carros. Odeio betão e alcatrão. Odeio rentabilidades e EBITDAs. Odeio o poder exercido em egoísmo. Odeio conversas de circunstância. Odeio o que fazem às crianças. Odeio a forma como o dinheiro é utilizado. Odeio os falsos sorrisos, as falsas amizades e as perguntas que não estão interessadas nas respostas.

Odeio chefes, directores e administradores e presidentes do conselho de administração. Odeio accionistas e planos de poupança.

Odeio agendas e relógios, odeio emparedamentos no tempo. Odeio grades e fechaduras e portas e janelas fechadas. Odeio modas e ditos politicamente correctos. Odeio perfumes artificiais e fast-food.

Odeio gravatas. Trelas. Mesmo as de seda. Ainda bem que não tenho que as usar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

As paredes, não se leia paredes, medem-se pelo número de humanos, não se leia humanos, a quem conseguem suportar o esforço sem ruir. Neste sentido, científico e sistematicamente estruturado, ignorem-se duas vírgulas e três pontos, o mesmo que consolidou enquanto objecto de estudo dinâmico a interoperabilidade entre dunas de fraca consolidação, particularmente atreitas às rachadas tempestades, acrescente-se água, vindas do mais brusco e estúpido oceano, escolha-se um deles, a que a vossa memória profunda, medir a profundidade por meio de sistema hidráulico que comporte uma régua e um nível, possa aceder, virados a leste sempre que os cardeais, que não os padres, antes os pontos, que seria absurdo falar da religiosidade dos cardeais considerando-os referenciais da rosa-dos-ventos, use-se uma outra flor qualquer, assim o permitem, as paredes, não se leia as paredes, consolidam-se estrutura plana e côncava que suporta e abriga a humanidade, ignore-se a humanidade, leia-se outra palavra começada por h que não humidade. As paredes não são náufragos da história; espreguiçam-se em todo o esplendor quando há rasto de olhar humano, franzir a sobrancelha, que é quase uma constante, tão constante quão constante pode ser a constância da ida e volta, ida e volta, ida e volta das marés de gente, repetir sem parar. Paredes a olhar olhos humanos, usar ditongo, olhos humanos a olhar paredes, usar não ditongo. Tão antiga é a parede que não se sabe quem primeiro chegou, se a parede se o olhar, que a obra é anterior ao olhar, mas antes de ser parede já o olhar. Se o olhar forma a parede, é a solidez da rocha que lhe consolida o carácter, substituir por uma outra palavra que não use do verbo ser, e esse, não obstante o peso do olhar, use-se uma balança de pesar-olhares, não se compadece com a tecedura, sentir o tecido a escorrer pela mão esquerda, de olhar verde, azul, castanho, preto, amarelo, vermelho, multicolor: as paredes não se medem pelo olhar, ignore-se a letra h duas vezes consecutivas, nem pela cor dos olhos que as olham: as paredes medem-se pelo número de humanos a quem conseguem suportar o esforço sem ruir com ruído ou com ruído sem ruir. Chegar ao final e não recomeçar.

Paulo Melo Lopes


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.



No dia 17 de Agosto de 1914 foi publicada a edição nº 17 de uma revista entitulada La Science et La Vie. A revista pertencia ao meu avô, que à data tinha 10 anos, a caminho dos 11. Assim, deve ter sido comprada pelo meu bisavô. Encontrei-a outro dia, por acaso, ainda em excelentes condições. As primeiras oito páginas estão todas cheias de publicidade a produtos e serviços inovadores do início do século XX, tais como máquinas de escrever da L.C. Smith & Bros., telégrafos sem fios da G. Péricaud, propulsores a petróleo para barcos da MM. G. Trouche, um dos primeiros aromatizadores da história, que é descrito como um “aparelho de repetição para a vaporização de líquidos e essências necessários para a limpeza das habitações, para a purificação do ar, desodorização, desinfecção e prevenção das epidemias”, da firma Swiss Hygienical, uma máquina rotativa para gelo e frio, chamada Frigogène, placas fotográficas Guilleminot, oferta de serviços de arquitectura e decoração de um gabinete que se chamava Le Bien-être Chez Soi, binóculos Stelar da Georges Hinstin e da Zeiss, fornos de cozinha e radiadores da C. Ducharme, um anúncio da Escola Bréguet-Electricidade e Mecânica, máquinas de costura da Singer, flutuadores Papillon (uma espécie de braçadeira para ajudar adultos a nadar, só que era colocada… no traseiro), um cachimbo aprovado pela Société d’Hygiène de France… mas esta publicidade tem algo de bastante diferente. Em todos os pés de página, está escrito, numa letra de tamanho normal (permitam-me que traduza): “Todas as afirmações contidas nos nossos anúncios são inteiramente garantidas pela La Science et la Vie.” Algo que seria impensável hoje. Já imaginaram os processos e falências? Na página 10 é apresentado o sumário:

O eclipse do sol de 21 de Agosto de 1914
O que é necessário gastar para matar um homem na guerra
De que forma a água modelou os peixes
O fabrico de diamantes em forno eléctrico
A lontra do Hudson, demasiado prolífica, ameaça invadir a Boémia
Prepare-se para os acidentes
A crise do Cacutchouc e o futuro do Congo francês
Alguns aspectos do circuito de Lyon
A marcha é o melhor dos desportos
E por aí fora. O papel macio envelhecido da revista encantava-me. Os anúncios eram deliciosos. Diverti-me a ler as críticas de um tal Dr. Breuillard aos saltos altos que as senhoras usavam e que, segundo ele, “deformam e martirizam o pé” e impediam as mulheres de praticar o salutar exercício da marcha. No final da revista, nova preocupação com as mulheres, mais anúncios com afirmações garantidas pela revista, mas desta vez com produtos de interesse exclusivamente feminino, tais como o Creme Simon, único para amaciar e embranquecer a pele, o sabão de beleza Erasmic que, além da garantia da revista, vem ainda com o testemunho da Mlle. Colonna Romano, do Teatro Francês, que afirma que a pele fica mais fina e aveludada, uma máquina de lavar roupa a vapor Titania… um dos últimos capítulos eram invenções dos leitores: um disco de celulóide, que se coloca no auscultador do telefone e que amplifica o som; uma engenhoca para apagar automaticamente a vela, quando ela estiver parcialmente consumida; uma rede para se poderem lavar as janelas em segurança… Continuo a folhear a revista, cheiro-a (aquele cheiro a cera de papel antigo), imagino o meu avô com 10 anos a lê-la, com aqueles olhos verde-água que ele tinha, o espírito curioso e irrequieto de auto-didacta, volto ao sumário e desta vez, a segunda história chama-me a atenção: Ce qu’il faut dépenser pour tuer un homme à la guerre. Leio de novo: O que é necessário gastar para matar um homem na guerra. Estranho o título. Seria tão politicamente incorrecto hoje… Vou para a página 158 e vejo que foi escrito pelo General Percin, antigo membro do Conselho Superior de Guerra. O artigo destaca-se, tanto pelo título, como pelo tema. O que tem a guerra a ver com ciência e vida? Bem, tem, com ciência e vida, ou como acabar com a vida de outro, neste caso, e quanto isso custa. É um artigo curto, de página e meia.

“Li, num jornal americano, que, para matar um homem na guerra moderna, é necessário gastar mais ou menos 75.000 francos. Esta cifra pareceu-me exagerada, por isso procurei verificá-la. As minhas pesquisas mostraram-me que o jornal americano estava aquém da verdade. A soma a gastar para matar um homem na guerra é com efeito o quociente de uma divisão, onde o dividendo é o que custa a guerra a um dos beligerantes e onde o divisor é o número de homens mortos do outro lado. Ora, a França gastou em 1870-1871 dois milhões de francos, mais ou menos, em custos de guerra propriamente ditos. Gastou mais um milhão para recuperar o seu material e para prestar socorro às vítimas da guerra, despesas que é apenas justo se incorporem no dividendo com os custos da guerra propriamente ditos. A França gastou ainda cinco milhões em indemnizações de guerra e mais dois milhões em juros deste valor, para pagamento e juros de dívidas, perdas de impostos, contribuições impostas pelo inimigo e manutenção do exército de ocupação da Alemanha. Mas esta terceira categoria de despesas é pouco provável que se repita em todas as guerras, por isso não entrará no dividendo. Pela mesma ordem de ideias, exponho a seguir as despesas relativas a outras guerras: guerra entre a Rússia e a Turquia (1877-1878), turcos: dois milhões; guerra entre a Rússia e o Japão (1905), russos: seis milhões. Por outro lado, o número de homens mortos ou que morreram dos ferimentos foram os seguintes: guerra entre a França e a Alemanha, alemães 28.600; guerra entre a Rússia e a Turquia, russos 16.600; guerra entre a Rússia e o Japão, japoneses 58.600. Donde resulta, que o preço de matar um homem foi: em 1870-1871, 105.000 francos; em 1877-1878, 75.000 francos; em 1905, 102.000 francos. Números iguais ou superiores aos comunicados pelo jornal americano. Quando iniciei esta pesquisa, esperava que os resultados fossem crescentes, entre 1870 e 1905. Com efeito, por um lado, os engenhos de guerra foram-se aperfeiçoando e o seu custo aumentou. Por outro lado, os progressos na arte de matar têm vindo a ser sempre ultrapassados pelos progressos na arte de defesa, de modo que a proporção de homens mortos ou feridos num hora de combate sem dúvida que diminuiu. Esta proporção era de 6%, sob Frederico O Grande, 3% sob Napoleão, 2% em 1870, 0,5% em Mandehouric. Mas, em 1870, não houve senão uma dezena de grandes batalhas. Os exércitos imperiais combateram pouco entre Sedan e Coulmiers. A luta foi retomada em Dezembro, mas com muito menos empenho que no início. Durante estas acalmias, os homens gastavam, mas não matavam. Em Mandehouric, pelo contrário, batalhavam quase todos os dias. As batalhas duraram 15 dias em Moukden, 12 dias em Cha-Ho, 8 dias em Liao-Yang. Este aumento da duração das batalhas compensou a diminuição do número de homens mortos ou feridos numa hora de combate. Por isso é que o preço de custo de matar um homem não foi mais elevado em 1905 do que em 1870. É por isso impossível prever com exactidão o que será necessário gastar para matar um homem na próxima guerra. A soma depende da fisionomia da luta. Se houver batalhas quase todos os dias, como em Mandehouric ou nos Balcãs, o preço de custo de um homem morto será próximo do indicado pelo jornal americano. Se as batalhas forem como em 1870, com intervalos mais raros, esse preço poderá aumentar numa proporção apreciável. E certamente que não diminuirá. Aquilo que mais matará e que reduzirá realmente os efectivos na guerra, não será nem o fuzil nem o canhão, será a fadiga, o tifo ou a cólera. Em 1870, entraram nos hospitais 380.000 alemães os quais, mesmo que não tenham morrido de doenças, não deixaram de ficar indisponíveis durante um certo tempo. A guerra da Crimeia custou aos exércitos aliados quase quatro vezes mais mortos pela doença do que pelo fogo das armas. Esta proporção foi de 3 para 1 com os russos em 1877-1878; não passou de 1 para 2 entre os japoneses, graças à sua excelente higiene durante a guerra de Mandehouric. Por isso conto mais que, na próxima guerra, se façam progressos na higiene e na arte de evitar as mortes sob fogo, do que com progressos na área da balística e meios de destruição.”

Será que o General ainda estava vivo, quanto as bombas caíram sobre Hiroxima e Nagasaki? E surpreende-me que não tenha somado ao dividendo os homens mortos do seu lado. Mas o mais surpreendente é o texto em si. A franqueza, crueza e mesmo brutalidade do texto, das preocupações expressas no texto. Leva-me a interrogar-me sobre quem seriam os leitores da revista. A revista custava 1 franco francês. Era, em primeiro lugar, para leitores e haveria muitos, em 1914? A Revolução Francesa não tinha em século. Logo, era para uma elite. Velha? Nova? Um misto de ambas? Este texto seria impensável hoje. Porquê? Porque as pessoas lêem. Será que lêem? Bem, alguns lêem, os suficientes, ainda, para que ainda seja impensável um texto destes nos nossos dias. Era também uma chamada de atenção aos curiosos da ciência e tecnologia emergentes, daí aparecer numa revista científica. Procura subtil de novos talentos? Não tão subtil assim. A guerra de 1914-1918 tem início oficial no dia 1 de Agosto, com a Alemanha a declarar guerra à Rússia e esta revista foi publicada a 17 do mesmo mês. No dia 3 de Agosto a Alemanha declara guerra à França e invade a Bélgica. No final, esta guerra provocou 10 milhões de mortos e 20 milhões de feridos. Foi utilizado armamento químico pela primeira vez. Só do lado da França morreram 1,4 milhões de soldados e 3 milhões de feridos. O que diria destes números o General Percin? Bem, dele não reza a história. Ou morreu ou foi dispensado.

O que é que mudou, de 1914 para hoje? Para além do General Percin se ter enganado redondamente em relação aos meios de destruição, só vejo uma outra diferença significativa: os leitores. Isto deveria fazer-nos reflectir a todos. E talvez, em nome de todos os mortos franceses, turcos ou russos que não entraram em cima nas contas do General, devêssemos, de uma vez por todas, acabar com todas as guerras.


segunda-feira, 24 de novembro de 2008


as partículas 
polidas em gelo
desrespiram 
pesam no vazio
sós, diáfanas
e tombam no infinito
indestinadas

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Bateu à porta. Mais um sarcasmo. Como se necessitasse que lhe abrissem a porta. A um sinal de Sophia, a luz desapareceu. Dirigiu-se à porta, os olhos escuros a emitirem uma ténue luz violeta, e abriu-a. O seu único filho estava diante dela, num corpo humano alto, belo, o rosto perfeito, os lábios talvez demasiado grossos, demasiado encarnados.
- Mãe… murmurou, com a sua voz rouca e sedutora.
O lobo negro ergueu-se, o pelo eriçado, a rosnar. Pedro olhou-o, com desprezo.
- Controla a tua criatura. Ou não sabes tu que eu, se quisesse, a destruiria num nanossegundo?
- Sim, Pedro., respondeu Sophia, calando Omael com o pensamento. Poderias fazê-lo. Mas surgiria outro no seu lugar. E mais outro. E ainda outro. Não podes tocar-me.
Um esgar de ódio contorceu-lhe a expressão. Ele sabia.
- Como queiras. No entanto, vê-lo sofrer não seria agradável para ti. – E, mudando habilmente de assunto – Onde está o teu Arcanjo?
- O Arcanjo morreu, quando me traiu.
- Mãe… Sophia interrompeu-o, cansada.
– És um falso deus, Pedro. Nada sabes da luz, dos éons ou dos arcanjos, embora estes últimos tenham sido iniciados por ti. Nem tens compreensão alguma do que seja a morte. Quanto aos Humanos, tens-te esforçado, filho, mas em vão. Viraste-os uns contra os outros, vezes sem conta, mas ainda não conseguiste controlá-los.
- Como te enganas, minha Mãe. Olha à tua volta. Usaram os cadáveres dos anjos caídos como energia. Libertaram de novo a escuridão. Quase toda a água do planeta está envenenada. Quando não tiverem água nem comida, virar-se-ão para mim. Duvidas? Não os conheces ainda?
Sophia estremeceu e preparou-se. Viera, como habitualmente, só para a atormentar.
- Queres que enumere quantas criaturas foram extintas o ano passado? Quanto caos foi criado? Tirou do bolso interior do casaco um enorme charuto, cortou-lhe a ponta com os dentes e acendeu-o com vagar. Inspirou profundamente e, deixando que o fumo lhe saísse voluptuosamente pelo nariz, boca e orelhas, continuou:
- As florestas morrem, a comida e água já está envenenada e não sei se reparaste, agora culpam os fumadores… como eu, dos tumores que lhes crescem no corpo. Farão o que eu disser, Mãe. Como fizeram outros no passado. Pertencem-me, de corpo e alma.
- Ao fim de todos estes milhões de anos, Pedro, não capturaste um único pedaço de espírito, um só micrograma de luz.
Os olhos de Pedro escureceram ainda mais, quando viu o corpo de sua Mãe desaparecer e fundir-se com a luz, emanando raios violeta, dourados e brancos. Estendeu a mão e Omael ganiu. Desfez-se em chamas demasiado rapidamente. Assim que Pedro desapareceu, Sophia regressou, os longos cabelos cheios de chuva, os braços carregados de sementes e, sobre os tições retorcidos de Omael, nasceu mais um lobo negro. Com um longo suspiro, preparou-se para mais uma discussão, desta vez com Miguel.


quinta-feira, 21 de agosto de 2008


Há muitas eras atrás, vivia no Ribatejo um Rei foragido. Ele era um foragido, porque embora tivesse nascido Rei, nunca o tinha querido ser. E assim, quando a ocasião se proporcionou, pela calada de uma certa noite, aparelhou e montou o cavalo que havia pertencido a seu Pai, o Rei-Surdo e cavalgou, cavalgou, até chegar ao Ribatejo. Aí, soltou o cavalo, que imediatamente se sentiu em casa com os seus amigos Lusitanos selvagens, e refugiou-se numa pequena casa de cal, abandonada.
O sonho dele era ser Poeta. Não podia ser Poeta, sendo Rei. Começou por recuperar a casa abandonada, pois é com o trabalho das nossas mãos que a poesia começa a formar-se, dentro da nossa cabeça. A casa era pequenina. Tinha um quarto, que também era sala, com uma lareira de pedra. Estava em muito mau estado, mas o Poeta voltou a caiá-la por fora e a pintá-la por dentro, removeu todo o entulho e com a madeira abandonada no terreno circundante, construiu a cama, a mesa, as cadeiras e até uma escrivaninha, para poder escrever.
O meu nome é Menahel. Já apareci noutras histórias. Preocupei-me com este Rei-Poeta, pois estava sozinho e esquecia-se de comer. Mal a mesa ficou pronta, passei a deixar todas as noites em cima dela um pão e uma garrafa de vinho que surripiava das quintas vizinhas. O Rei-Poeta comia e bebia, e nem se lembrava de perguntar como é que o pão e o vinho tinham aparecido na sua mesa. É natural. Afinal, tinha sido criado como Rei. Estava habituado a ser servido. Quando terminou os trabalhos de recuperação e carpintaria, sentou-se pela primeira vez à escrivaninha, com o pergaminho, pena e tintas que trouxera do palácio do Rei-Surdo e preparou-se para escrever o seu primeiro poema. Estava uma bela tarde nas Lezírias. Era Verão e estava calor, mas dentro da casinha caiada de branco estava fresco. Pela porta e janelas abertas entrava uma brisa cheia dos aromas da terra e dos frutos maduros. O Poeta mergulhou a pena na tinta, aproximou-a do pergaminho… e ficou paralisado. A tinta pingou um enorme borrão no pergaminho.
Bem, é preciso dizer que este Poeta não acreditava nem nas musas dos poetas, nem em fadas, nem mesmo no Pai Natal. Muito menos em anjos ou unicórnios ou cavalos alados. Nem tinha reparado nas asas do cavalo de seu Pai. Afinal, tinha sido educado como Rei. E os Reis são educados para acreditarem apenas no poder e na divindade do seu sangue azul.
Fiquei novamente preocupada com o Poeta. Como iria ele escrever o seu primeiro poema, se durante a infância os seus educadores tinham afastado dele todas as musas, fadas, anjos e unicórnios? Eu era apenas uma fada. Não podia inspirá-lo. Quando muito, podia alimentá-lo. Esperei, muito sossegada, no canto da lareira, enquanto via os borrões encherem o pergaminho. Até que o Poeta chorou. Foi então que a Musa dele regressou. Surgiu da casa caiada, linda e branca, como uma inspiração e sentou-se no seu ombro. Não resistiu às suas lágrimas e muito menos aos borrões. Estava zangada com ele, e por isso decidiu que nunca nenhum dos seus Poemas teria título algum, pois também o Poeta não conheceria o nome da Musa rejeitada, que regressava agora. Assim, o primeiro poema que escreveu não tem título, como nenhum dos outros que escreveu depois, chamou-se apenas: Sem título (00) e, sem que ele o saiba, foi escrito e dedicado à Musa branca e linda, fruto do trabalho das suas mãos, renascida da sua casa de Poeta.
E durante anos e anos, alimentado por uma fada e inspirado pela Musa branca, prosseguiu com a sua Poesia, ao ritmo de apenas dois poemas por mês, porque não conseguiu esquecer totalmente a sua educação de Rei e tudo tinha de ser perfeito, poderoso e brilhante, como o trono e coroa que rejeitara. Não foi Rei-Poeta, mas foi Poeta-Rei. 
 

 

quinta-feira, 12 de junho de 2008

O sal das lágrimas veio do mar há eras atrás, quando eu era um peixe. Trouxe o sal comigo, pois quando rastejei pela areia com pequenas patinhas quase inúteis, não consegui abandonar totalmente o grande azul e trouxe a água e o sal dentro de mim. Já sentia a pele a secar, quase a arder e as escamas a caírem, uma a uma, deixando em mim um rasto de sangue e já tinha tanta, tanta saudade, que ainda hoje me pergunto porque deixei aquela luz azul. Cá fora, antes que eu desse dez passos, milhares de minúsculas criaturas entraram por todos os meus orifícios e mataram-me ali, quase imediatamente. Desovei antes de morrer numa cova na areia e os meus filhos, assim que nasceram, levaram com eles as patas, já biologicamente avançadas, a água e o sal. Lembro-me disto agora porque estou longe do mar, morri muitas vezes, mas ainda aqui estou e sempre que choro, lembro-me dele, do mar, tudo por causa do sal que ainda existe nas lágrimas.

folhas soltas

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