
Hoje vieram ter comigo à saída da floresta, mesmo antes do viaduto. Vieram aos bandos. Não os consegui ver, mas ouvi-os, cantavam alto e alegremente, como numa conversa sobre esquilos, avelãs e o cheiro das folhas de eucalipto, os troncos a descascar prata e oiro com a chuva recente. Eram tantos. Senti-me profundamente grata, como uma criança, como quando era criança, pelo orvalho, a gratidão de ver o orvalho nas folhas de manhã, a caminho da escola, e consegui mais tarde no dia atravessar uma passadeira ao lado de um pombo gordo e preto, devagar como ele, ao ritmo dele, o barulho dos humanos era ensurdecedor, somos tantos, já não vejo as pessoas, tanta vaidade, tanta gravata, tanta ignorância, tão barulhentos, os homens, os egos enormes, as gravatas, a pressa, a arrogância, os poderes de coisa nenhuma, aqueles que são máscaras, e eu silenciosa com o pombo gordo e preto, bamboleante como um perú na véspera do natal, inchado de poluição, um pombo muito preto, na passadeira seguinte uma pomba voou ao meu lado, empresta-me as tuas asas, a pomba era cinzenta e branca, eles não saíram da floresta, mas agora sei que estão ali, à minha espera, nas manhãs, falam de esquilos e árvores e dos frutos de outono e do cheiro dos eucaliptos, pensei que iam entrar por ali dentro como os de Hitchcock, mas não, eram alegres e o outro, ainda tão jovem, o homem apressado que não larga o computador, pediu-me para lhe ir comprar um livro que ensina a viver devagar e eu percebi que tudo tem, de facto, um sentido qualquer, a ideia do livro veio com os pássaros da manhã.